





Que junto com meus pais íamos de trem para a Casa Verde visitar os parentes.O embarque era em São Caetano. (San Gaetano di Thiene). Desde a estação aos vagões da composição ferroviária era tudo coisa de inglês. Alguém sabe mais de trens do que o povo europeu? Era tudo impecavelmente limpo. Todo metal era polido. Ainda posso sentir o cheiro. As pessoas bem vestidas. Os homens usavam chapéu. Algumas mulheres também. Havia educação, cortesia, cidadania. Embora o chacoalhar dos vagões produzissem algum barulho, o povo falava baixinho, quase sussurrava. O embarcador na plataforma entoava seu apito. Alguém acionava a sirene. O maquinista soava o apito do trem, duas vezes. O comboio lentamente iniciava sua jornada. Logo ganhava velocidade. Não havia ar condicionado, nem poluição, a brisa entrava pelas estreitas janelas e davam um delicioso ar de liberdade. Ipiranga, Moóca, Braz e Luz.
A estação da Luz era um caso á parte. Aquela construção mexia com a minha cabeça. Grandiosa e imponente. Ali havia de tudo: Café, Restaurante, Engraxataria, Livraria, Bomboniére e lógico, uma ampla banca de frutas. Sempre tinha exposição de alguma coisa. Dali partiam os trens que mexiam com meu imaginário. Os velozes Estrella, Planeta e Cometa. Trens avançados para sua época. Na verdade de grande velocidade. Lembro que quando o Cometa trafegava no seu itinerário de São Paulo/Santos; tudo que se locomovesse na ferrovia, parava. Nessa época era engraxate no bar Santos em São Caetano e quando chegava a hora do Cometa passar, largava tudo e ia para a estação ver o famoso trem avermelhado passar. Cheguei a andar nele. Sentei em um de seus bancos de palhinha, tipicamente inglês.
Os trens que saiam da Luz rumo ao inteior eram de grandes composições. Certa vez cheguei a contar 25 vagões. Eram trens azuis ou cinzas. Primeira e segunda classes. Vagão Pullman. Restaurante. Bagagem e um do Correios. Sonhava em viajar num daqueles. Alguns anos depois consegui viajar em vários, para os mais distantes destinos. As ferrovias mudavam de nomes: Mogiana. Araraquarense, Noroeste, Paulista, qualquer que fosse a denominação, era tudo fantástico. Viajei em quase todas essas companhias. Tive o privilégio de andar no Santa Cruz e no Trem de Prata que faziam a rota São Paulo/Rio. Depois nos trens hungaros que andavam de São Paulo a Campinas. Eram deliciosos. Tomei muita cachaça e cerveja em seus simples e maravilhosos vagões restaurantes. Os trens hunagaros terminaram seus dias de glória fazendo transporte desde Santos de alguns privilegiados funcionários da Cosipa. Nao consegui andar no Bandeirante que fazia Campinas/Brasilia. Fico triste quando penso que estava tudo pronto e andando. Tinhamos uma malha ferroviária de fazer inveja ao velho continente. Como sempre, a incompetência e o descaso dos governantes, aliado á muita corrupção, descarrilharam esses possantes de seus trilhos. Privatizaram tudo a preço irrisório. Os burrocratas privilegiaram o transporte rodoviário. Prevaleceu o lobby das montadoras de caminhões e ônibus e seus acessórios que vinham na esteira. A nação brasileira pagou e continua pagando o custo disso tudo. Ninguém lembra mais. Será? Se você lembra, por favor, deixe seu depoimento!
Ordem das fotos:
- Estação São Caetano
- Estação da Luz
- Composição tradicional á época, tracionada por locomotiva elétrica.
- Estrella
- Cometa
- Trem Hungaro
- Trem de Prata
- Interior do Santa Cruz.
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Um comentário:
Ah... se o transporte entre cidades e estados brasileiros fosse de trem...
Seria lindo, bom e prático!
Aqui estou podendo ver como é maravilhoso poder se locomover com trem. Estou amando!!!!!!
Ah... bela crônica!
Bacio!!!!
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